Psicó.Soma
Será Poesia, tudo aquilo que eu sentir que seja Poesia - Gavine Rubro
Sexta-feira, 1 de Junho de 2012
Segunda-feira, 28 de Maio de 2012
POEMA PARA AL BERTO - GAVINE RUBRO
POEMA PARA AL BERTO
sim, é bem preciso, re-sentir, sem ressentimento. nomear o pensar, roça o marcial, amigo.
é preciso desconstruir a folha, beijar a cortiça abandonada do futuro que nos respira.
é preciso transbordar cada palavra, do bisturi delicado dos olhos audíveis na proveta do poeta. retirar todos os corantes paranóicos e cada conservante social, dos nomes amplos, para que se tornem rupestres, para que nos dedos que tocam o ventre das coisas, só haja ventre, e morram, as coisas amorfas da cabeça.
é preciso dizer até à exaustão cerebral do peito, dizer milhões de vezes amor. amor amor amor amor amor amor amor amor amor amor. partir toda a casca invisível e poluente que esculpe popular e dogmática, cada acção engessada em palavras mal sentidas. e desabroche-se o medo em pólen fértil, para a metamorfose total, dos agentes de acaso e maravilha. e em cada dia, uma borboleta minha mimando uma aranha, e das teias, alimento, para que todos os seres, sorriam puros. e também, em cada noite, crepúsculo rodopiante do ser, enxaguando a alma, aniquilando névoas e neblinas, que possam ofuscar os passos azuis do sangue.
sim, é preciso, re-sentir, sem ressentimento, oh poeta moribundo, com fundo de mundo em cada gesto teu, por tremendas viagens loucas, dentro da célula translúcida dos descobrimentos nus.
é preciso deixar a razão na sua loção pontual. despir o ego dos umbigos metálicos, para focar o zoom primordial da dádiva de não haver isso do tempo; não há isso, das palavras estáticas que prendem em anzol o mundo; há o ribombar fluído e eloquente do sentimento, a treva humana da sensação que é corpo, e antenas trepadeiras do universo, no somado cabal sentido.
quero o sereno suicídio do ódio, na vindoura gestação dos afectos, sem aborto possível do puro.
da pedra à carne, do universo sem necessária descrição artística: venha o sol, sem copo ou fome, Al Berto.
e pudesse deixar, hoje, a fala, a da garganta sonhada, e a do fogo saído dos dedos rubros, sabendo de antemão que amanhã, o nascer da manhã traria a luz sem réstia de caos - e seria pleno, num jubilo silente, ciente da missão cumprida, dos poetas.
Gavine Rubro
inédito
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POEMA - SÓNIA ALVES
Como sempre, estou à escuta, atento por aí, aos novos artistas, para com a partilha viva, os gritar das gavetas fora, para que se dêem a conhecer. A Sónia enviou-me um poema seu, e aqui fica, leiam. A poesia agradece. E sigam o exemplo, tirem os poemas da gaveta, e se não os enviarem para mim, enviem-nos para as ruas, para a Internet, para os livros, para onde quiserem. Não se guardem demais.
Continência Poética, em gesto cortês,
G.
Distingo te entre as árvores,
trazes me a lembrança do que foi,
levas a sensação de infinito a corroer-me como se tudo fosse impossível.
Tu és!
Porque infringiste a desordem na minha sanidade.
cada lágrima, que escorre na minha alma,
é a cicatriz da tua presença.
Inundaste-me,
e fascinaste-me,
enrolas-me numa armadilha insólida,
e cada passo é uma queda no abismo que fui.
sacodes-me a incoerência
que requer a tua presença,
como um ponto vital.
Já não quero a tua essência,
é um grito da razão,
porque todos os meus poros clamam por ti,
como a única salvação.
Sónia Alves
poeta farense
{poema recebido via facebook}
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Sónia Alves
Sábado, 26 de Maio de 2012
NO MEU COLO HÁ ELEMENTO DE ESTRELA - GAVINE RUBRO
NO MEU COLO HÁ ELEMENTO DE ESTRELA
peguei-te ao colo pela primeira vez. olho ainda a ganhar cor do exterior apreendido. uma dádiva, dada viva, à missiva da cria, encaixe do ser: ser mãe. ser pai.
procriar é o milagre da separação das águas, na sua união pelo outro lado. a água dá a volta ao mundo que procria, para no polo oposto se unir, louca e benigna: completa e animal.
ser irmão é tangível. ligação inequívoca e interminável.
Família. esse conceito, também ele com um casaco impermeável e confuso. dentro do casaco há pelo, e pele e músculo e osso e célula, e vulto que inclui. a Família é a mais sólida e exponencial raiz de cada criatura. seja quem for.
e uma mãe será sempre mãe.
e a mãe será sempre a gruta estética e compositora, donde eclodi.
e o pai foi um acessório.
o pai, um acessório de acesso, que só têm aqueles que não são acessórios.
o pai não foi um acessório.
a mãe e o pai, vento e pólen, mergulho e hidrogénio, treva e fogo, amor e céu.
os filhos, irmãos. os irmãos, enlace que deve sempre ser colosso. a família que deve e pode e consegue e faz. a família como memória infinita, no peito sem nervo.
e magoamos o amor, por lhe dar a merecida maior importância.
e não se furta o amor. e não se furta a família.
mãe e pai e irmão e avô e amada e todos os do mesmo sistema solar.
amo-te todos os dias. amo-te, família sem armadura.
família, palavra desmembrada para a sua gema: uniões do mesmo sangue, uniões de sangue distinto, e tudo aí é vermelho.
não ao ódio incontrolável da carne canibal que ameaça, a linha da estrela.
Gavine Rubro
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Quarta-feira, 23 de Maio de 2012
POEMA PARÊNTESIS DOS MEUS POEMAS - GAVINE RUBRO
POEMA PARÊNTESIS DOS MEUS POEMAS
traumas de infância,
são possíveis desde o parto,
e na ingenuidade são invisíveis.
(leitor: este parêntesis
é um trauma positivo de silêncio)
abram agora a boca
o ganha-pão miserável
na humildade plural
do suor em água,
que ocasião do acaso
explode o momento descobridor:
vou escrever isto!
a libertinagem dos excessos
na cópula entre ideia e experiência
fecundando o inabalável.
o único fiel animal de estimação
que acompanha os meus poemas,
é a caneta.
não negligen-cio ninguém
com os meus escritos.
e não esqueço também
os demónios pessoais
que elevam a sombra
à sua descoloração total
quando algo é chato,
é dúbio ser arte,
só se for uma chatice artística.
(será este parêntesis
bizarro
na leitura deste poema invertebrado?)
amo para não precisar de escrever;
Gavine Rubro
inédito
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Segunda-feira, 21 de Maio de 2012
ESPELHO MEU, SEM VIDRO: ESPÉCIME AUTO-BIOGRÁFICO - GAVINE RUBRO
{para ler ao som deste relaxamento}
ESPELHO MEU, SEM VIDRO - ESPÉCIME AUTO-BIOGRÁFICO
há cordas de harpa separando a melodia, entre o terror e a maravilha.
antes, era um embrião de cristal gigante, esperando o lapidar aguçado e fluído da gustação experiente, do ensinar do andamento. antes, havia uma imaturidade maior, no sentido oco da coisa: e o oco esvai-se se for oco por muito mais tempo, apesar da ocupação vazia pelo vazio ser existente, vejam-se certas ramificações biológicas que assim vivem. antes, havia uma exposição mais projectada, para o abraço de corpos necessários para o afecto amistoso do reconhecimento, da nossa amizade afectiva, para com os outros. antes, a minha poesia criada e vertida, na essência intuitiva e rupestre, era sacudida de afinco mais casto, em sinais de fumo para olhos de gente, que só quis aquecer com mimo e fogo; só que nisto da comunicação, há chuva cruzada com castanholas de vidro, mãos onde quis eu que criassem música: muitas delas só derramaram sangue intelectualmente sujo, de dentro das suas nucas.
há um canibalismo meta-assombroso, na ilusão causada pelas boas intenções, nas escadas apontadas à nuvem do azul geral. meta-assombroso, porque são dois cachos de assombro: a tempestade individual, no oceano da ferida, nascido pela incompreensão da boa vontade deste lado; e a treva artificial, que dispara o ego ao mar, e a onda tremenda que disto se consuma, engole em água de crosta, aquele que, com toda a carência legitima, se pôs a velejar na barca da inveja. falo de um canibalismo meta-assombroso, porque acaba por ser um cacho de cerejas podres, por serem tão pensadas, durante tanto valioso tempo, na ideia de arrogância, com ela mesma.
E eu, sim eu, sem depreciar o facto e vontade de ser; nem tão pouco, de elevar uma divindade em mim, que no corpo não existe, como na alma; afirmo isto, com toda a certeza da substância modal, que subsistem firmes e amplos, os meus ângulos de visão audível, a todo e qualquer entidade sensitiva.
antes, a chuva molhava-me a face, e queria gritar, em sulcos doces de mundos, a sensação húmida e plena, da estética ética do que existe e ninguém nota. agora, agora e hoje, guardo cada gota apenas para mim. guardo cada gotícula transparente e eléctrica, para mim e para quem a merecer, na metamorfose do aguaceiro em lágrima, lágrima de pestanas elevadas à serenidade suprema do amor sem desígnio: tudo e amor, amor é tudo; de tudo, para e com tudo: da formiga aos sóis, do ser ao crescente sendo eterno, da pedra levitante à estrela sedimentar.
agora, prossegue este vício incessante e cravado nas plaquetas explosivas, na implosão de fuga ao ser humano, de pertencer a esta raça alienígena e vil, em planeta de paz. queria eu, não ter esta capacidade poética; queria eu, que não houvessem desígnios e sim sentimentos. Sentir e matar essa palavra fundamental, o «porquê». Sentir e chacinar, sem sangue ou réstia de mácula, toda e qualquer necessidade redutora de definir e definir e definir. há essa deficiência no homem: definir e definir e pensar que define o indefinível, crer que é juiz de crimes, só reais dentro do entulho que o separa da sua máscara. e a leoa, que lambe a cria fértil no seio sem cismas? e as orcas, que vão dançando puras na alegria translúcida da água? vinquem, vinquem estas referências sem reticência: os primatas mais próximos de nós, são os mais brutos.
agora, hoje, hoje continuo caminhando descalço sobre a calçada. só que deixou de me poluir o alcatrão e as bocas alcatroadas do artífice nas cidades de vazio social. agora, não lavo os pés no rio, por ter os pés sujos: lavo-os porque mais irmãos são agora, de mim, os peixinhos ternos que me vêm cumprimentar, quando os visito na partilha e cavaqueira de ser-se natural.
ah, como me rio sozinho e convicto, pleno e aberto, murmurando estas palavras na propagação produtiva da potência de ter de transmitir: há na arte esta missão indelével, passar o testemunho da vida, para que, homens e mulheres, se dispam dos seus setenta porcento de influência imitante, e se lembrem, das moléculas sem espelho, dentro dos seus órgãos todos. há esta missão magnífica e terrífica no artista.
agora, queria viajar pelos trilhos moribundos e de êxtase, com Al Berto e Cesariny; queria tomar um café com o Herberto, fazer um dueto com o Ramos Rosa. Todos estes nomes são como os nomes referentes na distância: desejos de menino descalço, sonhando enriquecer o músculo do afecto e abraço, com a clarividência do que significam estes poetas.
Porém, e é um porém que vem bem embalando, este sentir lúcido: Existem os pilares do Olimpo de cada partícula humana. dissecando a minha alma, os pilares robustos do santuário que me sustêm os fôlegos, são a deusa Cibele, de cornucópia materna e altiva, no peito, e leais leões destruidores da injustiça, nas rédeas da sua alma, ser bela; Eros, deus pais do amor que me abre direcções; Urano, dono das nuvens, que me influem o renovável do aprender; e a fénix musical sem cinza, que me ampara as asas, para com ela, juntos alarmos as auroras do amor omnipotente de corações fundidos em sinfonia líquida, líquida e bebível na hidratação pura do espírito. e não esqueço o gesso de girassol, que me ampara a vertigem. não esqueço também os companheiros de batalha sem arma, os irmãos e irmãs, por esse cosmos fora. E estes pilares todos que falo, são também a volúpia do meu silêncio.
nos meus poemas espelho sem interferências, o mundo.
dedilho estas cordas de harpa, uma melodia angelical, onde o terror não existe, e a maravilha sã insiste.
agora, assim, agora, com silêncio, acabo este espelho meu, sem vidro: coisa rara, nos meus escritos.
Gavine Rubro
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Sábado, 19 de Maio de 2012
Dossier Entrevistas - Herberto Helder - Inimigo Rumor
É uma raridade Herberto Helder dar entrevistas, seja a quem for. Aqui fica a partilha. Poeta, poesia, responde às perguntas, em poesia. Para ler melhor, cliquem nas imagens para poder aumentá-las.
No final destas duas imagens, fica o link para a totalidade da entrevista. Desfrutem.
Dossier Entrevistas - Herberto Helder - Revista Inimigo Rumor #11
Entrevista toda: Aqui
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Sexta-feira, 18 de Maio de 2012
POEMA - QUANDO SE SAI DO CORPO - GAVINE RUBRO
QUANDO SE SAI DO CORPO
pedaços sentimentais da minh'alma
atraem-se sensual e magneticamente,
aura célula
osso sangue
tendão articular
poro a poro
emoção sem razão de frio.
alvura temperatura
sorte sem morte
norte sem corte
curto sem armadura
córtex enfático
das palmas dos pés
que ribombam no palco areoso
que descalça a casca das cidades.
impudor incolor
inspirada incessante
invencível intemporal
inúmera imanente;
impudor
incolor
indígena
há um encaixe longe
e minh'alma,
um pedaço seu
mínimo
olhos dentro
esfera sublime
sentida e engolida
pelo beijo de ser.
impudor incolor:
sem insígnias
quando se sai
do corpo.
Gavine Rubro
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Segunda-feira, 14 de Maio de 2012
Uma traça no espelho - Poema - Gavine Rubro
Uma traça no espelho
há agora uma traça rebentada no meu espelho // tenho um quê de
frágil, não tivesse eu carne, / carne que estremece o traçado cardíaco da minha
cabeça / quando fuzilo assim, um ser, / nesta acção extravagante, / teimosa e somática
/ em consentir o nojo de sentir nojo/ no aparecer d’um bicho / no meu quarto, /
quando bicho / sou / também. // posso maçar a noite no seu sono exequível /
posso ser o micróbio poético antifilosófico do medo, / e debater / comigo
próprio / a origem do nosso nascimento / na gaiola de pele aberta à alma. // giramos
num caminho / um caminho d’uma alma que
sorriu / e sofreu / noutras vidas, / onde nesta, / tenta superior a redenção. /
nascemos para o puro e para o amor geral, / o amor por tudo, / da gota ao globo, / o globo aberto sem tempo // minhas veias / transbordam lágrimas de certeza / transparente. // na vida /
às vezes complicam-se demasiado as coisas, / coisas simples, / e complicadas / com
o crescimento na dúvida de pó vazio, / em estátua demasiado pesada / para a
razão. // pouca gente sabe o que fazer, / para viver basta estar morto, / e as
respostas aparecem mais depressa sem perguntas // coisas vistas onde não
existem, / porque somos deuses físicos / da nossa realidade / de palco húmido.
// pensar demais / cria avalanches de neurónio dormente, / e só por pensar, / colhe-se
uma treva semeada pelo ego, / cravada em suor e sangue, / nas toalhas do cabelo
dos nervos. // na vida / às vezes complicam-se demais as coisas / coisas
simples, / e complicadas / com o crescimento na dúvida de pó vazio, / em
estátua demasiado pesada / para a razão. // sinto isto pela falta de
pensamento, / a margem oposta ao que disse até aqui, // como abomino o excesso desmedido,
/ sentir a mais, como quando abafei há pouco / a traça no meu espelho; / pensar
a mais, como o faz essa gente moderna / no descartável do pseudo-futurista //
senti a mais, / e ceifei um inocente // já há uns meses, / foi o mesmo / com
uma osga na parede, / que rancor casto este, com que desentupo os dedos / na
tela do poema: / castidade pelo remorso autêntico; / rancor pela dor rubra / interior
à estupidez de ser besta, / ser humano / e inacabado. // este poema / é a traça
gigantesca / que me devora as entranhas / das más influências escuras d’alma / por
aí soltas // este poema / é o exorcismo bizarro / do absurdo acidental / do cadáver
do erro.
Gavine Rubro
inédito {Maio 2011}
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Sábado, 12 de Maio de 2012
E nas tintas dispersas ficou-se este texto para possíveis erros de ortografia - Gavine Rubro
E nas tintas dispersas ficou-se este texto para possíveis erros de ortografia.
não é ser frio, tia. nem é da falsidade. é de cada um ser um mundo independente num cosmos sem limites. só que cada mundo toca noutros. a intersecção dessas circunferências, redondas no peito, redondas na nuca. curva, no leito da luta travada dentro. como um planeta precisa de satélites, o satélite precisa de planetas também, para criar calor e mesmo existência. não. um satélite é mais pequeno que um planeta. não quero superiorizar os tamanhos. vejam os cometas. as crateras fundas e moribundas, abruptas no seio verde da ingenuidade dançante do eu real de cada qual. crateras de soco traidor. tantas vezes crateras de mão cobra afagando o dorso da luz. isso é ser frio. isso é da falsidade. o cometa que cai sem aviso no terreno fértil do planeta criatura, onde lágrima e gota se confundem e demoram na procura do fruto da cinza. e é adubo a cinza. não esqueçamos o excremento, a cinza e o excremento que florescem os verbos vindouros. e que verbo para o concreto da alma? e que espelho na faca mão que acolhe com anéis de choque? e que constante, para o hálito fresco habitual do funesto? que balança de pele para um relógio vazio? que amor direi que caiba nas palavras?
não é ser frio, tia. nem é da falsidade. é de cada um ser um mundo independente num cosmos sem limites. só que cada mundo toca noutros. a intersecção dessas circunferências, redondas no peito, redondas na nuca. curva, no leito da luta travada dentro. como um planeta precisa de satélites, o satélite precisa de planetas também, para criar calor e mesmo existência. não. um satélite é mais pequeno que um planeta. não quero superiorizar os tamanhos. vejam os cometas. as crateras fundas e moribundas, abruptas no seio verde da ingenuidade dançante do eu real de cada qual. crateras de soco traidor. tantas vezes crateras de mão cobra afagando o dorso da luz. isso é ser frio. isso é da falsidade. o cometa que cai sem aviso no terreno fértil do planeta criatura, onde lágrima e gota se confundem e demoram na procura do fruto da cinza. e é adubo a cinza. não esqueçamos o excremento, a cinza e o excremento que florescem os verbos vindouros. e que verbo para o concreto da alma? e que espelho na faca mão que acolhe com anéis de choque? e que constante, para o hálito fresco habitual do funesto? que balança de pele para um relógio vazio? que amor direi que caiba nas palavras?
tia, as pessoas nascem. crescem e morrem. há ciclos concretos e definidos tão absolutos como a clarividência do silêncio. o amor é uma pessoa. um humano com asas, sem quimeras, e com provações hipotéticas: piscares de olho sabem-se de cor, e as provações ficam no seu areal movediço de carne sem osso. útil como as vidas. provas energéticas, como a pedra. a pedra não existe porque. a pedra existe. e sou. sou além da mão que segura a pedra e a atira ao mar que a sedimenta para uma viagem nossa para desprendidas e atentas flechas de algodão, sem mira. não há mira para a cabeça baixa pela sua pequenez de gota junto a tantas gotas. não há mira para o potro precoce e perigoso para si mesmo, pelo perigo nos olhos do homem besta. há na ira a mira. e na lira é o grito contra o sangue futurista trespassado ou sob mira.
tia, quero a bondade que ainda resta, reproduzida como se fose in vitro pelo mundo. quero a conjugação elementar do primórdio mais suculento do ser. o ser e pronto. e o amor acontece. flui. em cada pétala, tia. em cada toque. e há compromissos conceptuais que só desejam é expressar, unificar. unir esse elo privado que é dois em um sem nunca deixar o dois. o número azul sobre o ouro de tudo. o amor é o planeta azul sobre o ouro espectral de tudo. e eu amo o amor, tia. amo-o em todas as suas formas, até nas avessas, porque foram também elas mira injusta de flechas com algodão gasto.
não quero falsidades, tia. nem gelo.
quero paz. e sinto-a. morria hoje feliz.
Gavine Rubro
inédito
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Quarta-feira, 9 de Maio de 2012
Gosto de ver as mãos das pessoas - Diogo Da Costa Leal
GOSTO DE VER AS MÃOS DAS PESSOAS
Gosto de ver as mãos das pessoas. Nas ruas. Nos autocarros. Nos teatros. No café. Gosto da contemplação ambígua que me sugere. Por um lado, a inocência inocente ao apreciar a pele bonita nos dedos, joviais ou adultos, dos outros; e por outro, a interpretação divertida em calcular a vida quotidiana deles, a partir das características vincadas na pele.
Mãos com frieiras. Mãos de longos dedos, ou pequeninos. Mãos de unhas bem pintadas, outras, nem por isso. Mãos belas e sedosas. Mãos mais ásperas que língua de gato. Dedos gastos pelo afinco diário. Dedos irritadiços, com cigarro até à boca. Dedos tortos, pelo vício tolo de estalar os ossos, como nos filmes se vê: estalar o pescoço, os dedos, as costas. E os tiques nas mãos dos homens e das mulheres, ah, é cada um tão engraçado! Já tenho visto quem trema subtilmente, disfarçando com algum objecto por cima, para que ninguém veja; depois, há quem segure uma caneta e brinque com ela, entre os dedos; também aqueles que tocam dedo com dedo, acto nervoso demonstrativo de impaciência ou aborrecimento.
Cada mão tem a sua história. Seguidamente: há quem julgue as unhas bem pintadas das estudantes universitárias, como se esse facto fosse motivador do não trabalho doméstico delas. Sexismos, que o meu intelecto respeita, pela temporalidade de quem os faz com o que viveu, mas que só posso filtrar, naquilo que jamais quero exprimir ou pactuar.
Há um percurso puramente desmascarado em cada mão que por aí viaja, nua, nos braços dos humanos. Mão suave e delicada de mulher, aromática e sedutora. Mão íngreme e brusca de homem, veias salientes e unhas roídas. O ético do estético pode ser, ou redutor, ou amplificador. Para mim é óbvio como as cores primárias: o belo vive no belo e no feio, que também pode e deve ser belo. Beleza é tão diferente e crescente, daquilo que emana a sua definição, nas bocas do social comum.
E dou passos oculares em torno das mãos harmoniosas que se cruzam nos meus trilhos, sem acaso. Como gostava de as beijar a todas: as do senhor que ia à minha frente, no autocarro para São Bento, imensas e operárias; os dedinhos, minúsculos e macios da bebé rechonchuda de cor-de-rosa; a mão de três dedos da senhora que estava à minha frente na esplanada da Brasileira, combativa e destemida mão, que tricotava melhor do que muitas outras mãos, ditas opacamente normais.
O Ser Humano é muito marcial. Marcial e Óbvio. Vamos tentar pensar, gente. Vejamos as porções corpóreas mais aclamadas, por Homens e Mulheres, na sua apreciação conjunta: seios e traseiro, na Mulher; Altura e musculatura, no Homem. Frívolo. Limitativo. Hilariante. Apresento-vos então, o cabelo, o ouvido, o lábio, o nariz, olhos, pele, sinais, cicatrizes, clavícula, mão, anca, umbigo, costas, pernas, gémeos, coxas. Creio que deveria dar-se mais valor a tudo isto. Ao físico global e ao espírito leal.
E os pés. Já agora, cheguemos aos pés, que quase ninguém quer saber, dos pés. Pezinhos delicados, brancos e pequeninos, de ninfa autêntica. Os pés, gordinhos e compridos, dos rapazes cá da rua, a jogarem futebol, como eu jogava. Só que os meus, são esquisitos e esguios. E tenho as minhas mãos longas. Mais engraçadas, dizem, desde que deixei de roer as suas unhas. Mãos longas e fortes, capazes de agarrar o mundo, se o conseguissem agarrar, como conseguem, as mãos, da minha alma.
Diogo Da Costa Leal
inédito
06/05/2012 - Porto
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Domingo, 6 de Maio de 2012
POESIA DE RISCO - DANIELE NEGREIROS
Daniele Negreiros, amiga Poeta brasileira. Aqui está o seu recente e-book: Poesia de Risco, o qual tive o prazer de prefacear. Uma vénia à poeta; um abraço, à poesia.
Para leitura, clicai aqui.
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Quarta-feira, 2 de Maio de 2012
Café dos seis - Prosa - Diogo da Costa Leal
CAFÉ DOS SEIS
- Chamaram-me aqui para quê? - perguntou Diogo, sereno, olhando-os a todos.
Era um final de tarde crepuscular, quente e oxidante como os frutos.
- Há meses que não nos dizes nada, Diogo...
- Cala-te Ivo... Isso não é verdade, nunca deixo de me preocupar convosco. - respondeu, pronto.
- Se faz favor, é um café duplo, um martini tinto com gelo e casca de laranja, um chá de menta-absinto, um copo de vinho do porto curto, e uma fatia de bolo de chocolate... É o do costume, não é malta? - perguntou Gavine, de calças de pijama vermelho-velho, cabelos longos e vermelhos, e um sorriso inocente no rosto.
Estavam seis pessoas sentadas, naquelas duas mesas rectangulares e negras, juntas, na esplanada de um café pacato.
Ivo piscou o olho afirmativamente, Fernando assentiu com a cabeça, calmo; Diogo fez a sua habitual e brincalhona continência com os dedos na testa; alguém com uma grande túnica castanha, não respondeu; e um rapaz de caracóis, pálido e de olhos azuis-mar, sorriu com eles, ao infinito celeste e sem porquês. A empregada vociferou o seu habitual «é para já, meus anjos», e ficaram entregues a eles mesmos, novamente.
- Quando é que lanças o teu livro, Gavine? Já era tempo, não?! Ou estás à espera que eu lance primeiro? - questionou Diogo, em tom jocoso, irónico e familiar. Gavine acendeu um guardanapo de papel e abriu a boca:
- Sentes o cheiro a queimado disto? - e o papel ia-se queimando, pouco a pouco - Consegues sentir? Esteticamente tem a sua força própria, fogo como produto de uma intenção qualquer, de troçar um fruto artificial das árvores, para te responder a essa pergunta idiota...
- Calma... Ele perguntou por curiosidade. Eu também adoro o que escreves, Rubro - interrompeu-o Fernando, à medida que bafejava uma cigarrilha de cereja.
- Elementar, Fernando, elementar como a água. Querer já um livro meu, é como queimar este papel, de que agora só resta cinza. Quero que seja uma raiz crescida, de fruto concreto. Lançar agora um livro, seria forçar uma chama no social, apenas. Há tempo, e espaço. Agora não. E não faltaram oportunidades. Tudo está controlado... - continuou, o poeta de cabelos vermelhos.
- Que cromo... Então não me toques à campainha, quando quiseres ler-me um novo poema teu... É normal, querer-te numa estante. Não pelo sentido estético do papel, que dizes queimar-se no tempo. Queremos, para resiliência da poesia forte. - disse Diogo, piscando-lhe o olho, sorridente.
- Não me vou esquecer disso, rapaz. Lembras-te? Mesmo quando descanso sei, e acordo sempre sabendo... - e foi Gavine interrompido por Ivo, agora:
- Impressionante. Eu, na minha misantropia descritiva e canibalesca, sou incapaz de citar-me a mim mesmo. Até uso a Wikipédia, para armar-me de uma humildade parva e déspota. Tu não. Tu citas-te, com a gravidade da coragem - gozou, sem espera.
Fez-se uma pausa silente, onde apenas era audível o vento, dançando com as árvores, ali perto.
- Aqui está. Desculpem a demora, meus amores. Isto hoje está cheio, lá dentro... Aqui têm... - e serviu um a um, acusticamente.
- E tu miúdo, tens escrito? - perguntou Diogo, carinhosamente, ao menino pequeno sentado.
- Sim. A mamã é um amor. Escreve-me, sempre que lhe peço...
- Isso é que é uma intendente e perspicaz escritora fantasma - interrompeu tímido, Fernando, rindo, cheio de fumo na boca.
- E o poema em grupo, que tínhamos pendente fazer, malta? - inquiriu Gavine, prontamente.
- Outra vez?! - Ivo e Fernando troçavam, quase num coro combinado.
- Não ligues, Gê... Falam dois gajos, que só escrevem em casa, ou isolados, sem ninguém por perto - mandou Diogo a indirecta, numa mini-gargalhada - Não te cales, escreve. Um poeta que se cala, é uma árvore que morre de repente...
- Lá vens tu, com os teus lirismos de treta, e escreveres tu, também não? És de nós todos, o que menos escreve, o que menos partilha, o que menos mostra - disse certeiro, Fernando, sem parar de fumar.
Diogo calou-se, e como odeia ele, quando, raramente, o calam.
- Desmembraste-lhe os argumentos em ebulição, Fernando... Isso não se faz. - ria-se, tímido e extravagante, Gavine - ele tem mais que fazer do que escrever, faz ele bem... Nós é que temos este vício pior que nicotina, quem me dera não escrever, sortudo de merda... - e encaracolou o seu cabelo, bengala de um pensamento seu, que em fade out, se silenciava.
- E tu... Sim, tu... Que mania de nunca falares... Ainda bem que os teus poemas são meteoritos de força... És uma pessoa tão calada, que mete impressão. - inclinou-se Ivo à pessoa, de túnica mistério-acastanhada, sem resposta.
Nisto, o telemóvel de Diogo soou uma chamada, e levantou-se para atendê-lo, longe:
- Estou? Meu amor! Como estás? (...)
Conversou por ali fora, e quando voltou, as mesas estavam abruptamente vazias, de copos e chávenas por acabar de beber.
- Merda, sou sempre eu a pagar a conta destes gajos. - e riu-se, Diogo, muito, imenso, sozinho e pleno.
Pagou a despesa, e foi viver.
Diogo da Costa Leal
inédito
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Terça-feira, 1 de Maio de 2012
Eclético Azul - emissão de 30 de Abril de 2012
Li poesia de Scarlett Somniantium, Rute Castro e Susana G. Sousa.
Ouviu-se Pluto, Peixe Avião, Os Azeitonas...
E um poema, de Diogo Leal e outro, de Joaquim Morgado.
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Sexta-feira, 27 de Abril de 2012
RAIZONLINE - POESIA DE GAVINE RUBRO
Tive o prazer, a convite da RAIZONLINE, do seu Director Interino Daniel Teixeira, de dar a conhecer ao público desta rádio/jornal online, a minha humilde existência poética. Este meio de comunicação social é dirigido ao público Algarvio, Nacional e Internacional; com consideráveis seguidores no Brasil (espectável e aprazível).
Mais uma vez, por acaso factual, sou companheiro da Poeta Sylvia Beirute, também nestes trilhos. Que deleite, o privilégio de construir o lego da canção-poema, ao lado de pares poetas, que sigo, interajo, leio e tanto prezo. Os meus parabéns à RAIZONLINE pela sua inovação, pelo convite que me endereçaram, e a todos os que aqui param, e de certo modo, tornam estes mimos possíveis.
Quem quiser conhecer mais o poeta que sou, em mais poemas que crio, visitem o artigo: Aqui.
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Quarta-feira, 25 de Abril de 2012
EDUCAÇÃO SENTIMENTAL - BERNARDO SOARES
EDUCAÇÃO SENTIMENTAL
Para quem faz do sonho a vida, e da cultura em estufa das suas sensações uma religião e uma política, para esse primeiro passo, o que acusa na alma que ele deu o primeiro passo, é o sentir as coisas mínimas extraordinária — e desmedidamente. Este é o primeiro passo, e o passo simplesmente primeiro não é mais do que isto. Saber pôr no saborear duma chávena de chá a volúpia extrema que o homem normal só pode encontrar nas grandes alegrias que vêm da ambição subitamente satisfeita toda ou das saudades de repente desaparecidas, ou então nos actos finais e carnais do amor; poder encontrar na visão dum poente ou na contemplação dum detalhe decorativo aquela exasperação de senti-los que geralmente só pode dar, não o que se vê ou o que se ouve, mas o que se cheira ou se gosta — essa proximidade do objecto da sensação que só as sensações carnais — o tacto, o gosto, o olfacto - esculpem de encontro à consciência; poder tornar a visão interior, o ouvido do sonho — todos os sentidos supostos e do suposto — recebedores e tangíveis como sentidos virados para o externo: escolho estas, e as análogas suponham-se, dentre as sensações que o cultor de sentir-se logra, educado já, espasmar, para que dêem uma noção concreta e próxima do que busco dizer.
O chegar, porém, a este grau de sensação, acarreta ao amador de sensações o correspondente peso ou gravame, físico de que correspondentemente sente, com idêntico exaspero consciente, o que de doloroso impinge do exterior, e por vezes do interior também, sobre o seu momento de atenção. E quando assim constata que sentir excessivamente, se por vezes é gozar em excesso, é outras sofrer com prolixidade, e porque o constata, é que o sonhador é levado a dar o segundo passo na sua ascensão para si próprio. Ponho de parte o passo que ele poderá ou não dar, e que, consoante ele o possa ou não dar, determinará tal ou tal outra atitude, jeito de marcha, nos passos que vai dando, segundo possa ou não isolar-se por completo da vida real (se é rico ou não, — redunda nisso). Porque suponho compreendido nas entrelinhas do que narro, que, consoante é ou não possível ao sonhador isolar-se e dar-se a si, ou não é, com menor, ou maior, intensidade ele deve concentrar-se sobre a sua obra de despertar doentiamente o funcionamento das suas sensações das coisas e dos sonhos. Quem tem de viver entre os homens, activamente e encontrando-os, — e é realmente possível reduzir ao mínimo a intimidade que se tem de ter com eles (a intimidade, e não o mero contacto, com gente, é que é o prejudicador) — terá de fazer gelar toda a sua superfície de convivência para que todo o gesto fraternal e social feito a ele escorregue e não entre ou não se imprima. Parece muito isto, mas é pouco. Os homens são fáceis de afastar: basta não nos aproximarmos. Enfim, passo sobre este ponto e reintegro-me no que explicava.
O criar uma agudeza e uma complexidade imediata às sensações as mais simples e fatais, conduz, eu disse, se a aumentar imoderadamente o gozo que sentir dá, também a elevar com despropósito o sofrimento que vem de sentir. Por isso o segundo passo do sonhador deverá ser o evitar o sofrimento. Não deverá evitá-lo como um estóico ou um epicurista da primeira maneira — desnificando-se porque assim endurecerá para o prazer, como para a dor. Deverá ao contrário ir buscar à dor o prazer, e passar em seguida a educar-se a sentir a dor falsamente, isto é, a ter ao sentir a dor, um prazer qualquer. Há vários caminhos para esta atitude. Um é aplicar-se exageradamente a analisar a dor, tendo preliminarmente disposto o espírito e perante o prazer não analisar mas sentir apenas; é uma atitude mais fácil, aos superiores é claro, do que dita parece. Analisar a dor e habituar-se a entregar a dor sempre que aparece, e até que isso aconteça por instinto e sem pensar nisso, à análise, acrescenta a toda a dor o prazer de analisar. Exagerado o poder e o instinto de analisar, breve o seu exercício absorve tudo e da dor fica apenas uma matéria indefinida para a análise.
Outro método, mais subtil esse e mais difícil, é habituar-se a encarnar a dor numa determinada figura ideal. Criar um outro Eu que seja o encarregado de sofrer em nós, de sofrer o que sofremos. Criar depois um sadismo interior, masoquista todo, que goze o seu sofrimento como se fosse de outrem. Este método — cujo aspecto primeiro, lido, é de impossível — não é fácil, mas está longe de conter dificuldades para os industriados na mentira interior. Mas é eminentemente realizável. E então, conseguido isso, que sabor a sangue e a doença, que estranho travo de gozo longínquo e decadente, que a dor e o sofrimento vestem! Doer aparenta-se com o inquieto e magoante auge dos espasmos. Sofrer, o sofrer longo e lento, tem o amarelo íntimo da vaga felicidade das convalescenças profundamente sentidas. E um requinte gasto a desassossego e a dolência, aproxima essa sensação complexa da inquietação que os prazeres causam na ideia de que fugirão, e a dolência que os gozos tiram do antecansaço que nasce de se pensar no cansaço que trarão.
Há um terceiro método para subtilizar em prazeres as dores e fazer das dúvidas e das inquietações um mole leito. É o dar às angústias e aos sofrimentos, por uma aplicação irritada da atenção, uma intensidade tão grande que pelo próprio excesso tragam o prazer do excesso, assim como pela violência sugiram a quem de hábito e educação de alma ao prazer se vota e dedica, o prazer que dói porque é muito prazer, o gozo que sabe a sangue porque feriu. E quando, como em mim — requintador que sou de requintes falsos, arquitecto que me construo de sensações subtilizadas através da inteligência, da abdicação da vida, da análise e da própria dor — todos os três métodos são empregados conjuntamente, quando uma dor, sentida imediatamente, e sem demoras para estratégia íntima, é analisada até à secura, colocada num Eu exterior até à tirania, e enterrada em mim até ao auge de ser dor, então verdadeiramente eu me sinto o triunfador e o herói. Então me pára a vida, e a arte se me roja aos pés.
Tudo isto constitui apenas o segundo passo que o sonhador deve dar para o seu sonho.
O terceiro passo, o que conduz ao limiar rico do Templo — esse quem que não só eu o soube dar? Esse é o que custa porque exige aquele esforço interior que é imensamente mais difícil que o esforço na vida, mas que traz compensações pela alma fora que a vida nunca poderá dar. Esse passo é, tudo isso sucedido, tudo isso totalmente e conjuntamente feito — sim, empregados os três métodos subtis e empregados até gastos, passar a sensação imediatamente através da inteligência pura, coá-la pela análise superior, para que ela se esculpa em forma literária e tome vulto e relevo próprio. Então eu fixei-a de todo. Então eu tornei o irreal real e dei ao inatingível um pedestal eterno. Então fui eu, dentro de mim, coroado o Imperador.
Porque não acrediteis que eu escrevo para publicar, nem para escrever nem para fazer arte, mesmo. Escrevo, porque esse é o fim, o requinte supremo, o requinte temperamentalmente ilógico (...), da minha cultura de estados de alma. Se pego numa sensação minha e a desfio até poder com ela tecer-lhe a realidade interior a que eu chamo ou a A Floresta do Alheamento, ou a Viagem Nunca Feita, acreditai que o faço não para que a prosa soe lúcida e trémula, ou mesmo para que eu goze com a prosa — ainda que mais isso quero, mais esse requinte final ajunto, como um cair belo de pano sobre os meus cenários sonhados — mas para que dê completa exterioridade ao que é interior, para que assim realize o irrealizável, conjugue e contraditório e, tornando o sonho exterior, lhe dê o seu máximo poder de puro sonho, estagnador de vida que sou, burilador de inexactidões, pajem doente da minha alma Rainha, lendo-lhe ao crepúsculo não os poemas que estão no livro, aberto sobre os meus joelhos, da minha Vida, mas os poemas que vou construindo e fingindo que leio, e ele fingindo que ouve, enquanto a Tarde, lá fora não sei como ou onde, dulcifica sobre esta metáfora erguida dentro de mim em Realidade Absoluta a luz ténue e última dum misterioso dia espiritual.
s.d.
Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.
- 308.
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